O presente estudo objetiva investigar a biografia e o pensamento político de Carlos Lacerda (1914–1977) ao longo da história da construção da democracia representativa no Brasil, em particular, do período 1945–1968. Lembrado por seus frequentes apelos favoráveis a golpes de Estado e regimes de exceção, Carlos Lacerda ocupa um lugar delicado na historiografia e na memória política carioca, tendo nas ambivalências de sua relação com a democracia brasileira um ponto importante de reflexão.
Nesta tese, pretendemos questionar certa centralidade conferida pela historiografia ao liberalismo no pensamento político lacerdiano, propondo, como hipótese central, que a doutrina social católica e a democracia cristã forneceram bases igualmente importantes de construção de sua interpretação sobre os problemas brasileiros e os caminhos necessários para a sua superação. Por meio da análise de artigos, notícias, entrevistas e editoriais divulgados em jornais e revistas nacionais, de correspondências privadas, pesquisas de opinião, documentos oficiais, livros e depoimentos, buscamos compreender propostas, dúvidas, distorções, revisões e conflitos protagonizados por Carlos Lacerda ao longo de sua vida pública, tendo em vista o seu projeto de construção da reforma social e da democracia no Brasil, entre os anos de 1945 e 1968.
Partimos do princípio de que o estudo sobre Carlos Lacerda é necessário para se compreender algumas características marcantes da República de 1946 e que permanecem influenciando o comportamento político de boa parte das pessoas, a exemplo de seu moralismo, autoritarismo, da relação entre política e religião e da dificuldade de encontrar soluções pacíficas e moderadas para os conflitos pelo poder.
Esperamos que a presente tese contribua com a historiografia sobre o Brasil republicano, trazendo para o debate uma série de desafios e problemas decorrentes da história da democracia em nosso país, encarados por nós desde uma perspectiva crítica e atenta ao rigor metodológico inerente à profissão do historiador.


