Esta pesquisa se debruça sobre a análise histórica das múltiplas formas de mobilização e das configurações de aldeamento protagonizadas por povos indígenas no cenário urbano da cidade do Rio de Janeiro, no tempo presente. O estudo se concentra em duas experiências emblemáticas que emergem no início do século XXI: a Aldeia Maraká’nà, estabelecida no antigo Museu do Índio, e a denominada "Aldeia Vertical", uma ocupação multiétnica em um edifício do programa "Minha Casa, Minha Vida".
Longe de serem fenômenos isolados, esses aldeamentos são aqui compreendidos como sujeitos históricos que, por meio de sua agência, produzem novas territorialidades, reelaboram memórias coletivas e constroem narrativas históricas próprias, desafiando a invisibilidade a que foram relegados pela historiografia tradicional. O projeto parte da premissa de que, embora a colonização possa ter se findado, o colonialismo não se findou e que seus ideais seguem pertencentes a narrativas históricas, em detrimento de outras.
A hipótese central que orienta esta investigação é que esses aldeamentos urbanos representam mais do que estratégias de sobrevivência ou de luta por moradia; eles se constituem como espaços de produção de história e de consciência histórica. Ao se estabelecerem na metrópole, esses coletivos indígenas engajam-se em um complexo processo de reelaboração do passado, ativando memórias ancestrais e de luta para legitimar sua presença e suas reivindicações no presente. Ao fazerem isso, eles produzem o que se propõe chamar de "cosmohistórias urbanas": narrativas históricas que partem de epistemologias e temporalidades não-ocidentais para dar sentido à sua existência na cidade, contestando a história oficial e as políticas de memória que historicamente os excluíram.
A emergência desses movimentos não pode ser desvinculada de um duplo processo histórico: a longa duração da presença indígena na cidade, sistematicamente invisibilizada, e a conjuntura específica do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XXI, marcada por megaeventos esportivos e por um intenso processo de "empresariamento urbano". Essa conjuntura exacerbou conflitos por terra e moradia, empurrando para a esfera pública a luta de grupos historicamente marginalizados. A Aldeia Maraká'nà, em particular, surge como um símbolo potente dessa disputa, ao ocupar um espaço de grande valor simbólico – o antigo Museu do Índio – e resistir a um projeto de "revitalização" urbana que previa sua demolição. A Aldeia Vertical, por sua vez, emerge como um desdobramento desse conflito, realocando parte dos indígenas em um complexo habitacional, mas reconfigurando a luta pela territorialidade em um novo formato, o da "aldeia" em um edifício residencial.
Essas experiências, portanto, são aqui analisadas como fenômenos do tempo presente que condensam processos históricos de longa, média e curta duração: a violência colonial e o apagamento de suas memórias; as migrações forçadas para os centros urbanos ao longo do século XX; e a agência política indígena que se reorganiza e se torna visível diante das contradições do capitalismo contemporâneo.


