Em dois países diferentes do globo, nas décadas de 1960 e 1970, dois grupos se formaram e atuaram para lutar contra as ditaduras de seus países e em prol do que acreditavam ser a libertação de seus povos: a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), no Brasil, e o Euzkadi Ta Askatasuna (ETA), no País Basco, na Espanha. Embora em hemisférios distintos, as duas organizações se inspiravam nas mesmas experiências revolucionárias: Cuba, Vietnam e China eram as principais referências e a tática adotada foi a da guerrilha. Tanto na VPR quanto no ETA, a violência era vista como aspecto balizador para as ações planejadas.
Os homens e as mulheres que aderiram aos grupos, ao mesmo tempo que tinham suas próprias pautas, baseadas em seus próprios contextos socioculturais e nacionais, estavam inseridos na lógica da época de 1968, que movia esquerdas ao redor do mundo em prol de um marxismo anti-imperialista e anticolonial e crítico à União Soviética cada organização tinha sua própria definição de quais seriam os agentes dominantes: no caso do ETA, o Estado espanhol, que não reconhecia a autonomia étnica e política do País Basco; para a VPR, por sua vez, os Estados Unidos, que exerciam sua dominação através do próprio regime ditatorial implementado a partir do golpe de 1964.
Os dois grupos possuíam, entre seus militantes, mulheres e, portanto, o objetivo deste projeto é investigar sua atuação, sua motivação para ingresso nas fileiras dos movimentos, as atividades que exerciam, os cargos que ocupavam dentro da lógica organizacional etc.
A análise do engajamento feminino em organizações que tinham como linha principal o emprego da violência auxilia na problematização de estereótipos pacifistas associados às mulheres, uma vez que, biologicamente, são dotadas do direito de gerar vidas. Para isso, o uso de gênero como categoria de análise será muito útil, dado que permite examinar criticamente os papéis sociais atribuídos historicamente a homens e mulheres e, portanto, historicizá-los.


