Na primeira metade do século XX, a região de Mundo Novo, no interior da Bahia, foi palco da chegada de uma ordem religiosa vinda da Áustria. Missionários em terras estrangeiras e refugiados europeus da Segunda Guerra Mundial, a chegada e fixação dos monges cistercienses ao sertão baiano foi marcada por muitas dificuldades que iam desde o aprendizado de outra língua, separação de sua pátria e os traumas vivenciados pela Guerra, até o aprendizado de uma nova cultura e adaptação ao calor e sol escaldante das terras do sertão baiano. Parte desse cotidiano vivido pelos cistercienses que vieram para a Bahia, está narrada em cartas trocadas entre os monges que vieram e se fixaram em missão em solo brasileiro e os que retornaram para Europa a exemplo do Abade geral Dom Aloisio Wiesinger. A documentação analisada para essa pesquisa, aponta que na década de 1930, o Brasil recebeu Cistercienses em duas regiões: interior da Bahia, na região de Mundo Novo, e no interior do Estado de São Paulo, em Itaporanga; observa-se também, através de correspondências, a existência da comunicação entre os cistercienses que se fixaram no Estado da Bahia e os que se estabeleceram em São Paulo, sobretudo com orientação e estratégias que deveriam ser utilizadas para fluidez e sucesso no processo de implantação do Mosteiro cisterciense no interior baiano. Importante destacar que os cistercienses chegaram primeiramente em Itaporanga/São Paulo no ano de 1934, e em 1937, no interior da Bahia. A vinda da ordem para o Brasil esteve diretamente relacionada a dois fatores: os conflitos causados pela Segunda Guerra Mundial e a perseguição nazista a ordens religiosas na Europa; e ao objetivo da Igreja Católica no Brasil de expandir e reformar o catolicismo em áreas que não conseguia alcançar por falta de vocacionado. Foi nesse contexto que a abadia de Schlierbach foi transferida da Áustria para o Brasil em 1942, retornando para a Europa em 1950 após erguer a Abadia Nossa Senhora Mãe Divina Pastora em Jequitibá tendo a Educação como projeto evangelizador para o sertão baiano. Essa pesquisa tem por objetivo estudar e analisar a fixação e implantação do mosteiro cistercienses em Jequitibá e seu projeto evangelizador através da educação a partir de um rico acervo das correspondências escritas e trocadas entre os cistercienses entre os anos de 1937 e 1951. Através das cartas é possível compreender muito do processo de construção do mosteiro na Bahia, assim como é possível entender por meio de suas descrições e narrativas, as representações de si (do autor) enquanto cisterciense, bem como sua abnegação e respeito aos princípios da ordem religiosa descendente dos beneditinos: ora et labora. Para compreensão teórica desse trabalho, estamos considerando as cartas/correspondências como documentos, e buscamos interpretá-las à luz de Foucault quando nos propõe interrogar quem é o autor e a compreensão da individualização de suas histórias e ideias.


